foi adicionado com sucesso ao carrinho

Não há tenista de alto rendimento sem envolvimento muito forte dos pais. É interessante conhecermos a opinião de um especialista nessa área. Eric Boisson é um dos melhores e mais experientes treinadores franceses e é referência na formação de tenistas de alto rendimento — desde a infância até os primeiros passos no circuito profissional, ele já formou mais de 70 jogadores. Este post apresenta as respostas deste treinador sobre a importância dos pais no projeto esportivo do tenista. Até que ponto o papel dos pais é importante? Como o treinador pode aconselhar os pais? Como lidar com a relação “treinador–pais”? Aqui você vai encontrar algumas ideias que podem ajudar tanto o treinador quanto os pais do tenista juvenil.

Fonte da imagem: http://www.clubcorp.com/Clubs/Coto-de-Caza-Golf-Racquet-Club

1) Importância da relação pais–treinador para o tenista juvenil

Blog: Fala-se muito da importância da relação entre pais e treinadores. Você pode comentar?

Eric Boisson: É preciso entender que, antes do projeto esportivo, há o projeto familiar. Na verdade, o treinador está presente para acelerar o processo em alguns momentos. Ele pode aconselhar e direcionar apenas de maneira leve, mas não pode em nenhum momento mudar a motivação da criança no seu contexto familiar. Trabalhei com vários especialistas do esporte; durante 20 anos colaborei com um ethos-psicanalista que me ajudou a entender melhor essa relação. Ele me explicou que o esporte é igual a uma linguagem e que tem diferentes códigos em função da modalidade. A motivação para o ser humano praticar um esporte de competição é obviamente resultado de uma construção afetiva e da necessidade de expressar o que tem dentro de si.

Assim, existe um “triângulo” forte entre o jogador, a família e o treinador. Como treinador, a grande dificuldade é que existe, sim, afeto entre o atleta e o treinador, mas ele nunca deve ocupar o papel dos pais. O treinador precisa saber colaborar com eles e aceitar as diferenças, pois as famílias podem ser muito diferentes umas das outras. Isto pode ser apenas uma questão cultural, considerando que há famílias que vêm de um outro estado e possuem costumes diversos, por exemplo.

Então, o treinador deve compreender quais são os valores do esporte para a família, o que o esporte significa para a mãe, para o pai e, consequentemente, para o tenista juvenil. Nós, treinadores, estamos aqui para ajudar a desenvolver o projeto e isto não é sempre fácil, pois o treinador vai ter, naturalmente, em alguns momentos, o reflexo de tomar posse do sucesso, da história, e é importante manter distância a respeito disso. O treinador tem também seus próprios desafios e não deve haver confusão entre as metas da vida pessoal e as metas da família a respeito do esporte. Para concluir, não conheço muitos tenistas de alto rendimento sem ter tido um projeto familiar muito, muito forte.

2) Atuação da família no projeto esportivo do tenista juvenil

Blog: Em sua opinião, como a família deve atuar no projeto esportivo em função das idades?

EB: No início, a família está com 100% do projeto. A criança está no seu ambiente local, com um clube que disponibiliza estrutura de aprendizagem: o minitênis. Neste caso, pode ser que a família já esteja envolvida com o tênis — se pelo menos um dos pais já estiver em contato com a competição, isso facilita o processo. O clube, muitas vezes, vai ajudar os pais a ingressarem na modalidade; entretanto, a organização da prática do tênis — que é um esporte individual — pertence à família. É ela quem decide 100%. Em geral, as famílias que acompanham os filhos ficam obcecadas pela bolinha o tempo todo. Mesmo se forem apenas três treinos por semana com 9 a 10 anos, a organização leva os pais que trabalham a se adaptarem e, então, a ter um foco para o esporte o tempo todo. Isso pode até trazer algum prejuízo para os irmãos, pois é necessário organizar a vida da família em função dos treinamentos, das competições e, para isto, é preciso estar 100% envolvido.

Fonte da imagem: https://bemsacado.com.br/2017/04/03/iniciacao/

3) Três dicas para os pais que acompanham o projeto esportivo do tenista juvenil

Blog: Você poderia dar três dicas para os pais que acompanham o filho com um projeto esportivo forte de competição?

EB: A primeira dica seria saber se relacionar com o ambiente esportivo. Os pais precisam ter o apoio e as orientações dos especialistas, dos profissionais. Pode ser o professor do clube, o treinador de outra estrutura ou de um centro de treinamento da federação. Possivelmente pode haver alguns conflitos, pois o entrosamento entre os princípios educativos e os princípios esportivos pode ser complicado para os pais de vez em quando. Então, podem acontecer alguns desentendimentos entre pais e treinador. Consequentemente, a família precisa aprender a lidar com isto, ficar positiva e criar uma relação forte, pois dificultar a relação “pais–treinador” prejudica a aprendizagem do esporte e da vida para a criança. Este é a primeira coisa importante.

A segunda dica é tentar encontrar uma distância entre a competição e os resultados. Isto pode ser complicado. O pior para a criança é escutar dois tipos de discurso. Os pais podem ter um discurso inteligente, equilibrado, mas, na verdade, dentro deles há um sentimento completamente diferente. A criança vai sentir os dois discursos e isto vai dificultar a boa postura. Eu acredito que os pais, mesmo um pouco exagerados a respeito de algumas coisas, precisam se manter neutros para ajudarem o filho a se “posicionar” melhor. Se a criança ficar triste, ela vai rejeitar a atividade, pois a situação pessoal fica pesada demais, mas pelo menos ela saberá o porquê. O discurso parental — que, às vezes, pode ser muito “bonito”, porém carregado de emoções fortes — não ajuda o tenista a “se construir”.

A terceira dica é entender que a coisa mais importante não são, necessariamente, os resultados. Com o tênis, o aspecto individual é muito forte e isto possibilita experiências muito ricas, qualquer que seja o nível alcançado. Todos os atletas juvenis com os quais trabalhei, quando chegam na idade adulta (20 a 35 anos) confessam que o esporte foi algo que deixou marcas para a vida toda, para uma profissão, para a personalidade. O tênis os ajudou a superar limitações que eles pensavam serem grandes demais e isto é que é importante. Para os pais, esta deve ser a meta.

Pais, treinadores ou atletas: não deixem de comentar com suas experiências!

Laurent Philippe

Autor Laurent Philippe

Mais posts por Laurent Philippe