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A palavra “jogo” é polissêmica. Pode ser o “brincar”, quando as crianças estão jogando na escola, numa queimada, etc. Este “jogar” pode ter vários sentidos: auto-organização, imaginação, gratuidade, etc. “Jogar” também pode ser “praticar uma atividade” — como, por exemplo, jogar bola, jogar tênis, jogar dominó, etc. O “jogo” também pode ser uma partida de tênis ou de outro esporte: “ganhei ou perdi meu jogo”.

Quando uma palavra tem vários sentidos, enxergam-se possibilidades, limitações ou ambiguidades. Para dar um exemplo específico ao tênis: eu posso jogar (uma partida) sem jogar (brincar); eu posso perder meu jogo (a partida) jogando bem (nível de jogo); posso ganhar meu jogo (a partida) sem jogar (sem exigir do adversário e vice-versa)!

Vamos entender melhor e ver quais são as dicas para os treinadores e professores de tênis.

1) Jogar (play) e jogo (game): dois sentidos do jogo

Fonte da imagem: http://blog.prospin.com.br/equipamentos/dicas-para-evitar-lesoes-ao-jogar-tenis/

 

Os ingleses, neste caso, têm um vocabulário mais rico que o nosso, pois eles têm duas palavras: “play”, que significa o jogo lúdico, gratuito, sem regras, e “game”, que significa o jogo com suas regras e códigos. Vamos utilizar essa diferença para observar um tenista juvenil de 11 anos, Eduardo, jogador de nível nacional (imaginado para este artigo). Quando ele joga no seu clube, apenas com seus amigos, ele ri, tenta realizar golpes que surpreendem, ele se empolga quando tem êxito, não se importa com os erros. Mesmo se tiver regras — com qualquer tipo de contagem —, ele fica do lado do “play”. Quando ele treina, fica concentrado, pois quer progredir; ele bate a bola e gosta do que está fazendo. É o prazer das sensações corporais (bola bem centrada, o segundo saque bem dominado, etc.), o prazer de conseguir executar seus golpes, o que proporciona o bem-estar, o prazer da troca com os parceiros, do olhar apoiador do treinador. Os pontos podem incentivá-lo, ele joga de maneira solta na quadra. O “play” ainda faz parte!

O “play” (jogar) continua na maneira de preparar uma partida, de desenvolver os golpes, mas neste tipo de situação há o equilíbrio entre “play” e “game”.

 

Fonte da imagem: https://www.usta.com/en/home/play/play-as-a-member/national/about-junior-tournaments.html

 

Agora, vamos assistir ao jogo do Eduardo. Ele está um pouco tenso e “travado” antes de iniciar, mas é concentrado e consegue bons golpes. Ele se motiva, fica na frente no placar e a vitória está por perto. Neste momento, o adversário começa a melhorar. Eduardo comete alguns erros e começa a ficar nervoso. Ele se cobra, olha rápido para seu treinador ou seu pai, que estão assistindo ao jogo. Ele se trava cada vez mais, chega a ser vencido pelas emoções e começa a chorar.

Para o Eduardo, o “game” (jogo) dominou o “play” (jogar), e isso pode ser normal com qualquer menino de 11 anos. O que ele vai priorizar? O “brincar”, o “jogar” solto, ou ele vai começar a sentir o peso das exigências e das obrigações? Eduardo é um menino que gosta do tênis e que joga muitas vezes (“play”), mas ele quer ter seu desempenho máximo, principalmente no torneio (“game”). Ele sabe que seus resultados podem levá-lo aos próximos níveis no mundo do tênis (todo mundo fica orgulhoso na academia); sabe que seu pai deseja que ele desempenhe (o pai fala que os resultados não importam, mas o Eduardo enxerga bem a alegria ou a decepção do pai quando ele ganha ou quando perde). O treinador dele é competente, e o Eduardo sabe que ele torce e o apoia. O treinador cobra na quadra (o que é normal para se tornar um bom jogador). A mãe e as irmãs são orgulhosas. Um adulto da academia disse a ele que o Brasil precisa dele para vencer Roland Garros! Era uma brincadeira, mas se pudesse acontecer seria tão bom! Assim, o “game” se torna superior ao “play”.

2) Jogar (play) e jogo (game): fatores de progresso e de desenvolvimento

As crianças entendem logo as expectativas dos adultos. Isso começa com o andar, o falar, a leitura, a escrita, o cálculo, o comportamento com os outros, etc. O “jogo/play” é um componente fundamental do desenvolvimento. Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, indicou, em 1974, a necessidade dos espaços de criatividade para o desenvolvimento da personalidade da criança e da sua autonomia. Ele utiliza a palavra “playing”, conceito dinâmico do desenvolvimento. Explica, também, que há necessidade de colocar o “game” no “play” da criança nova, com regras “escondidas”. Por exemplo, o “jogo de bolinha de gude”, que tem suas regras e faz conviver o “play” e o “game”. Winnicott explica que o “game”, jogo definido com regras conhecidas e estabelecidas, leva a comportamentos estereotipados, e o “play”, pelo fato de jogar de maneira livre, leva a desenvolver a criatividade dos gestos. Porém, o “play” precisa do “game” para evitar certos comportamentos violentos ou de destruição que a criança pode mostrar. O autor explica, também, que é necessário haver um “interplay”, no qual cada um participa da construção do processo de aprendizagem.

A respeito do desenvolvimento da criança, é importante que ela tenha a capacidade de ficar só (veja aqui um breve resumo da psicanálise de Winnicott). No desenvolvimento da criança, sua capacidade de estar sozinha consigo mesma é uma parte importante do seu desenvolvimento. Se a aprendizagem for, etapa após etapa, prazerosa, continuará a ser; se for constrangedora, com muitas cobranças, então os travamentos e desânimos aparecem e aumentam. Muitas vezes as crianças têm algo de positivo com as aprendizagens, o que não as impede de passar por dificuldades também. A grande vantagem do tênis é que ele é um jogo!

O jogo no campeonato oficial é um divisor de águas. É o momento no qual podem se encaixar os medos (de perder, de vencer, de jogar mal, de ser ridículo, de ficar abaixo do nível, etc.), as angústias (escondidas, confusas, sem razão especial, etc.) e a esperança. Não podemos esquecer que algumas crianças gostam do “game”, pois precisam do “estímulo” para “brigar”, jogar contra alguém mais forte, etc. Essas conseguem manter o “play” em situação de “arrocho”.

3) Como envolver, manter e desenvolver o “jogar” (play) num “jogo” (game)?

Fonte da imagem: https://br.freepik.com/fotos-gratis/jogador-de-tenis-inclinado-contra-a-rede-em-frustracao_1223084.htm

 

Essa diferença entre “play” e “game” é didaticamente muito importante. Na pratica do tênis, os dois devem conviver, se completar e se encaixar. Um “play” que não aparece para o jogador iniciante ou que some para o jogador avançado ou de alto rendimento leva, na maioria das vezes, a parar a atividade. O desânimo acontece também num jogo no qual há apenas obrigações ou estereótipos. Como tornar a quadra um espaço de criatividade para a criança, o adolescente, o adulto, um espaço no qual a personalidade pode desenvolver-se e que não seja um lugar “sem alma”?

Para os tenistas de alto rendimento, isso também é complicado, pois há o desgaste psicológico, conforme explica Christophe Dejours em seu livro “Travail, usure mentale”, de 2008. Na verdade, manter o prazer é uma prova de busca do lado “criança” que todas as pessoas têm dentro de si. A liberdade do gesto e de brincar! Encontrar o play do jogador é um desafio para o treinador e os recursos estão na pedagogia.

Sentir-se progredir, ficar surpreendido consigo mesmo, focar na tática, nas escolhas, brincar na oposição, saber fazer um bom jogo mesmo ao jogar mal, enfrentar novos desafios, ser reconhecido pelos treinadores, pelos demais jogadores. Cada jogador deve ter a sua gama de “play”. Mas deve-se implantar o “game” (escolha de jogo em função do adversário, da quadra, das regras, da contagem dos pontos e da própria partida em si) desde o início: implantar o lúdico, o “play” no “game”, mas também o “game” no “play”! É necessário manter os dois de maneira equilibrada, e isso vai evitar os problemas de transição entre o treinamento e a partida, entre o “play” e o “game”.

Como fazer para que o jogo continue a ser uma “atividade de criança” o máximo de tempo possível? É difícil! O treinador encontra seu prazer na formação de um juvenil talentoso. Ele pode encontrar, assim, seu valor, fortalecer sua “identidade profissional”. Ele precisa encontrar seu maior prazer ao desenvolver a autonomia do seu jogador. Por exemplo, desenvolver a capacidade do jogador de ficar só, durante o treinamento, durante o jogo — é um aspecto fundamental do crescimento do jogador.

4) O caminho pedagógico

Fonte da imagem: https://br.freepik.com/fotos-gratis/homem-novo-que-joga-tenis_800490.htm

 

E quais são as estratégias que o treinador pode e deve utilizar para favorecer o progresso?

  • Possibilitar momentos de jogo com o jogador “sozinho”; não ficar sempre presente com um olhar “formador” ou “treinador”; algumas vezes, é bom deixar de lado suas exigências internas de treinador ou professor para que o aluno não caia na autocrítica que gera frustração pesada (errar um golpe se torna um “tsunami” afetivo).
  • Permitir a criação no jogo; conversar com o jogador sobre as possibilidades táticas ou técnicas.
  • Manter o lúdico no treinamento, brincar com o jogador, estipular objetivos pedagógicos mais do que objetivos de resultados. Colocar repetição e volume, mas sempre com uma proposta lúdica, com uma proposta de desenvolvimento da concentração, do foco, etc.
  • Desenvolver a flexibilidade, a recuperação física e psicológica entre os golpes, entre os pontos, entre os sets.
  • Fazer com que o jogo se torne uma experiência real, vivenciada pelo jogador e apenas por ele. Desenvolver a capacidade de ser o dono da partida (as decisões, a gestão), de ser autônomo na quadra com o apoio do olhar (de ajuda) do adulto.

Nota: todas as referências do texto estão no artigo original: PESTRE, G. Quand le game peut tuer le play. E-Mag: Revue du Club Fédéral des Enseignants de Tennis, n. 93, maio 2014. Disponível em : <http://blog.trans-faire.fr/quand-le-game-peut-tuer-le-play>.

Fonte da imagem de capa: https://br.freepik.com/fotos-gratis/jogador-de-tenis-esgotado_1188614.htm

Laurent Philippe

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