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“A questão não é que eu seja muito inteligente; eu simplesmente me detenho por mais tempo nos problemas.” (Albert Einstein)

 

Nos últimos tempos, tem se publicado e discutido muito sobre o tema do desenvolvimento de talentos. A perspectiva do talento como algo divino e sobrenatural tem caído por terra pouco a pouco. A ênfase não é mais a qualidade genética dos indivíduos: como se uma elite humana tivesse o melhor DNA e fosse destinada a se sobressair em determinada questão — o que levaria a mazelas bem-conhecidas, como a ideia de “eugenia” (selecionamento de raças).

No campo da genética esportiva, uma indagação recorrente é se, de fato, é possível herdar uma composição genética que transfira a funcionalidade atlética entre indivíduos. A resposta parece ser conclusiva: o talento depende de uma constante interação entre genes e meio ambiente. Defender a existência de um dom é, no mínimo, leviano e desconsidera todo o treinamento e obstinação por parte dos indivíduos. No tênis ocorre um fenômeno bastante peculiar com os jogadores prodígios, atletas que, na tenra idade, apresentavam desempenhos acima da média da sua categoria, mas que, com o passar do tempo, não mantiveram o mesmo nível de desenvolvimento. Os motivos podem ser muitos para acontecer essa estagnação.

Para entender melhor essas questões, vamos analisar alguns pontos importantes do processo de treinamento a longo prazo.

1) Processo de aprendizagem

 

Para se atingir a maestria no jogo de tênis, devem ser dominados muitos conteúdos e este não é um processo passivo. Os treinadores e jogadores devem ser conscientes da perturbação cognitiva momentânea que isso pode causar — perseguir um objetivo de aprendizagem pode durar meses, anos. Esforço e diversificação dos meios e métodos de treinamento devem ser empreendidos para mobilizar toda a capacidade do indivíduo para a tarefa; muitas vezes, os jogadores talentosos tornam-se irresponsáveis e passam a não se arriscar em tarefas em que têm pouco domínio.

O tênis exige um grau de automatização das ações motoras extremamente complexo; essa desenvoltura só é obtida por meio de um processo muito bem ordenado e depois de milhares de repetições — dessa forma, é necessária uma capacidade de autorregulação do indivíduo para sair da zona de gratificação instantânea e almejar o sucesso a longo prazo. Ou seja, deve-se aprender a gostar do “processo de aprender”. São necessárias 10.000 horas de treinamento para se atingir a maestria; imagine quanta motivação e apoio familiar são necessários durante esse processo, que pode durar 10 anos ou até mais.

2) Prática deliberada

Fonte da imagem: https://static1.squarespace.com/static/55c38eece4b0d25cdccec12f/56dda5f92fe1312eff3168ee/56dda6222fe1312eff316a00/1457366599924/home+girl%2Bwalking%2Btowards+1400×932.jpeg

 

É rotineira a máxima de que “a prática leva à perfeição”, mas o fato é que praticar qualquer atividade sem critérios é facilmente encarado como algo recreativo e, certamente, não haverá um esforço consciente para romper com as barreiras de aprendizagem. O mais adequado seria dizer que “a prática CERTA leva à perfeição!”. Por isso os melhores treinadores são os mais disputados. Por isso vemos a cobrança permanente a respeito da qualidade da execução. Por isso insistimos que o conhecimento advindo das ciências do esporte deve integrar os conteúdos do treinamento, ao invés de utilizar rotinas contraproducentes. Por isso a capacidade de se fazer compreensível para os jogadores é uma característica marcante dos excelentes treinadores e que os faz otimizar o tempo de aprendizagem.

Dessa forma, a qualidade e intensidade dessa prática é tão importante quanto o volume de treinamento para aprender e consolidar os conceitos. Saber como utilizar da melhor maneira possível as horas de treinamento faz toda a diferença. A organização do treinamento vai guiar o desempenho; devemos nos lembrar da história da Alice no país das maravilhas: “Se você não sabe aonde quer chegar, então qualquer lugar serve”.

3) Monitorando e ajustando os desafios

 

Um conceito extremamente importante do campo das teorias da aprendizagem é o da zona de desenvolvimento proximal (Lev Vygostsky), que se refere às capacidades cognitivas que os indivíduos estão prestes a obter com o auxílio de um tutor, mas que, no entanto, não podem desempenhar sozinhos — é um estágio de florescimento da aprendizagem, que deve ser estimulada. No entanto, deve-se ajustar o nível de desafio, pois uma tarefa extremamente complicada e desconectada da aprendizagem é algo que o aluno não compreende e que, assim, cria uma barreira no processo de ensino. Da mesma maneira, uma atividade corriqueira não recruta os recursos neurológicos para se resolver o problema em questão. Portanto, deve-se observar com atenção o jogador, se o nível de competição é adequado, se o tipo de bola, de quadra e de materiais são os indicados, se os conteúdos têm inter-relação entre si, se apresentam coerência, etc.

Estes são os cuidados necessários para ajustar as cargas de treinamento e encontrar a medida justa da aprendizagem. No mais, a continuidade é o fator-chave que parece destacar os melhores jogadores do restante. Como diz Toni Nadal a respeito das adversidades: “O problema dos jogadores que não lutam quando as coisas não saem como querem é que eles creem que são muito bons e não aceitam jogar mal.”

Fonte da imagem de capa: http://blog.rakete.com.br/jogar-tenis/

Denis Santos

Autor Denis Santos

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